sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Pascoal da Conceição foi ver Os Bandidos e escreve suas impressões

VÁ CORRENDO PARA O TEATRO OFICINA VER OS BANDIDOS


“Os atores acabam de chegar! Os melhores atores do mundo! Seja na tragédia, comédia, drama-histórico, pastoral, pastoral-cômica, histórico-pastoral, trágico-histórica, transcriação tragicomicahistóricapastoralconcretabstrata, tragikomediorgia, tanto o drama com unidade de tempo e lugar como no poema sem unidade nenhuma, Nelson Rodrigues, não muito pesado, nem Oswald de Andrade muito leve.
Tanto no respeito a tudo o que está no texto, dentro das normas, quanto na maior liberdade do improviso: ELES SÃO OS ÚNICOS.” W. Shakespeare.



Esqueça toda caretice, todo folclore que somos obrigados a ouvir quando se trata dos espetáculos que acontecem no Teatro Oficina. Mande pro lixo não reciclável o nhenhenhen preguiçoso que fala mal das peças de seis horas, ou daquele torcer de nariz que diz que já viu tudo e sabe de tudo. Talvez você fique meio sem jeito, como eu fico, quando um senhor todo de branco, até nos cabelos, vir cantando e de braços abertos em sua direção (é o Zé Celso), mas não vá pensando nada, nem deduzindo nada, ele vai te surpreender. Vai cantar o ponto das crianças engatinhando, vai subir e descer os cinqüenta metros da rampa mais rápido e em menos tempo que você precisa pra entender por que “strum um drang” virou “estrume do mangue” nesta versão antropofagiada e carnavalizada do texto do adolescente alemão de quase trezentos anos atrás para o brasileiro de hoje. Pode até ser que o olhar da garota do lado mexa com você como há muito tempo não acontecia ou que o garotão faça você reparar numa beleza e num cabelo igual ao que você já viu antes.
Pode tudo dentro da mais escandalosa disciplina que o teatro mais rigoroso exige. Afinal são seis horas cravadas para contar com toda dedicação um dos mais eletrizantes textos da história do teatro mundial. Você nunca viu o que você vai ver e vai sair querendo mais.

“Exu é duas cabeças.
ele olha sua banda com fé
uma é satanás no inferno
a outra é Jesus de Nazaré!”

Assim começa BANDIDOS na porta do teatro oficina. A voz maravilhosa da cantora Célia entoa com deliciosa melodia o canto que abre as portas para a entrada do público. Ela banha com champanhe a porta do teatro e nos prepara para o banho de luz, som, música, teatro, cores, mídias visuais em que estamos entrando, pisando de leve no tapete branco que cobre o chão do teatro. É deslumbrante!


Schiller em alemão quer dizer cintilante, a palavra reproduz o barulhinho das cintilações que emanam das coisas em vibração e será assim vibrante, barroco, luminoso, será assim que agora esse alemão, homem de teatro nos será apresentado.
Estou escrevendo tentando me segurar para não sair voando depois de seis horas meteóricas vividas dentro desta arquitetura destinada às mais ardentes paixões a caminho da alegria indescritível que é perseguida por esta peça de amor sobre todas as coisas.
Uma intriga entre irmãos que rende um dos mais delirantes discursos sobre as vidas humanas. Estamos todos lá nesse encontro original, nos reconhecemos Jesus ou Satanás, amantes sempre, correndo atrás do desejo. Todos, sem exceção. A peça é simples como uma pétala e não há quem não se emocione. Vamos rir e chorar como há tempos não fazemos dentro do teatro, porque as interpretações são de arrombar. Não quero estragar a surpresa de ninguém, mas quando Naomy abre o segundo ato com a ária da opéra de Ariadne ou quanto Damião Marcelo pede dez minutos de amor com Ariadne Sylvia, é de rasgar o coração de não sei que emoção, que palavras podem definir melhor. Preste atenção aos vôos dos corvos do Edgar Alan Poe, com seu definitivos nunca mais. Que riqueza de imaginação criou aquelas maravilhas! E o figurino cacho de uvas da Bacante Vidente!? As marionetes!? A banda que toca tudo que se possa imaginar que vai do som mais pianíssimo, trompetíssimo, tamborinado, de baixo, voz violão até o mais estrondoso solo de bateria. Pra onde você olhar estará tendo visões inacreditáveis. Não dá pra citar um a um, é uma ficha técnica de gigantes. Seria o caso de citar um a um, sem preguiça mas não vão deixar e o que eu quero é dar o mais rápido possível o meu recado. Peguem a ficha técnica para rezar baixinho cada um daqueles nomes que da direção à produção, à atuação, criação. Cada nome é o nome de um ator santo, que nos santifica e embeleza com tanta dedicação. Zé Celso é sempre a parte. Esse homem é um gênio, um presente dos deuses pra nosso mundo, uma honra para o teatro da cidade de São Paulo.
Aliás, é pela efervescência no teatro que se faz dentro do Oficina que se compreende a diversidade teatral que enfeita e enriquece a vida da cultura nossa cidade, o Oficina é o amor a todos os teatros, todos os atores, todos os grupos, que com sua virulência fazem o melhor teatro do mundo, dá vontade de sair gritando todos os vivas e evoés que o teatro merece.
Com todo amor que houver nesta vida, não deixe de viver essa alegria indescritível.

PASCOAL DA CONCEIÇÃO

(Sábado eu estou lá de novo e vou levar todo o elenco do CALÍGULA!)

2 comentários:

Sergio disse...

Fiquei o final de semana passado todo atrás desse senhor maravilhoso, visionário, doido... afinal "os loucos vêem mais que todo mundo" e amei cada minuto que passei no Oficina... Minha vontade era não sair mais de lá... Mas, de volta a realidade!!! Evoé!!!!!!

Rapha disse...

Estive aí uma seis vezes e gozei de um enlevo corporoespiritual muito sutil, e É sensacional o sentimento apaixonante que vive na alma que eu sou agora. Algo esquisito me preencheu ao ver a dança do bem-e-o-mal pela ótica de vocês técnicos, atores, atrizes e todos profissionais desse ritual público. Sinto uma magia impressionante me colando a vocês e percebo que em algum momento cósmico da vida eternamente estarei com todos e todas intimamente "yogados" em meu coração. O Amor existe e DEUS também e talvez eles não precisem desses nomes mas que Eles existem, existem. E é com este sentimento doce de paixão moderoexagerada que eu manifesto a Alegria de poder cósmicamente conviver convosco, pessoas do Oficina e do mundonipresente TEATRO! E em O DEUS agradeço este labor pela busca de uma vida com Sentido.
AMOR!

 
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