sábado, 1 de novembro de 2008

Dionisio, 50 anos

por Rodrigo Dionisio, do blog http://hajasaco.zip.net

DIONISIO, 50 ANOS

Não é pseudônimo. É sobrenome, trazido com meu avô, retirante de Pernambuco, assim mesmo, sem acento. E estávamos lá, em presença física ou espiritual, Dionisio, Artaud, Rocha, Monteiro, Buarque, Becker, Pandolfi, Nachtergaele, Brecht, Mello e, claro, Martinez Corrêa. Lá no teatro Oficina, em sua comemoração de 50 anos de existência, na terça-feira passada. Começou por volta das 21h45, tive de sair umas 3h30 da quarta. A festa continuou, até 6h30, fiquei sabendo. Pareceu só terem passado 10, 15 minutos. Foram encenados trechos das principais montagens do grupo, bebeu-se vinho, se improvisou, muito. Atuações exageradas, dança, cacos, intimismo, imaginação, pouco a ainda ser mostrado, áudio, vídeo, céu.

A melhor palavra para descrever o que foi visto é anacrônico. E isso pode ser crítica e elogio. Zé Celso e sua companhia pregam coisas fora deste tempo. De piadinhas com artistas "vendidos" (talvez irônicas para a trupe, mas levadas a sério por parte de seu público, que gritava impropérios contra a TV Globo durante aparição surpresa de Matheus Nachtergaele) a um espírito aparentemente enterrado na cultura nacional. Cultura dionisíaca, do gozo, mas não do egoísmo. O verdadeiro tesão vem em grupo, e o Oficina mostra-se generoso, prega o olhar para o outro, o respeito a quem quer jogar o jogo. Zé Celso bradou, várias vezes, contra o burburinho de conversas nas galerias e do lado de fora: "Isto não é sala de visita! O teatro odeia sala de visita!". A cultura nacional tem se tornado uma grande sala de visita, por culpa de quem faz, mas principalmente de quem assiste.

O Oficina é anárquico, hedonista, sexual e sexualizado. Os corpos nus dos atores inspiraram casais, trios, quartetos que se beijavam ao final oficial do espetáculo, antes de tudo virar pura festa. A menina que quase virou personagem, trocando de parceiros e rolando no chão com eles entre as pernas, às vezes em cena aberta. Sem dúvida outras ações, dos mais tímidos, na volta para casa ou entre quatro paredes. E quem tem um pouco de sensibilidade entende, isso não é exposição fácil, e sim busca de libertação, da divisão para soma, Sodoma, doação. Não vale como contar beijos na boca e encubar sapinho em micaretas. É usar seu corpo para algo especial, mesmo que só dure 30 segundos.

E talvez, e principalmente, tudo naquela terça-feira revelou-se tão anacrônico por causa do público. Quem estava lá na fila, e trocou vinho, flores e frutas pelo ingresso, não parecia com os freqüentadores do Studio SP ou do Espaço Unibanco. Havia até uma linha, seria possível tentar, mas do estudante de publicidade e propaganda à senhora de camisa com estampa de oncinha, do mar de jovens atores e músicos ao bebê que, ao ver sua imagem projetada no telão, mandava beijos (sim, havia crianças na platéia), todos tinham lugar. O Oficina não escolhe público, faz marketing mambembe, acolhe quem quiser ir e ver. Saí de lá trêmulo. Poderia dizer que a culpa era do frio da madrugada, tenho certeza não ser só isso.

Antes do rito, como foi chamado, ainda na fila de entrada, um vídeo-repórter da TV Cultura enfiou a câmera na minha cara e pediu para eu mandar uma mensagem para o Oficina, além de parabéns. Nessas situações, você sempre fala o que vem na cabeça, óbvio e idiota, mas normalmente sincero: "que venham mais 50 e mais 50 anos". Que depois do Zé (o grande pai branco daquele terreiro), se leve a história em frente. Que alguém convença Silvio Santos e os moradores do bairro da possibilidade de uma convivência pacífica. Tudo ali parece fora do tempo, mesmo, e que fique claro, sendo moderno como Tropicália e Mutantes ainda são. Era/É um tempo muito bom. Era/É teatro, mas era/é muito mais. Evoé!

2 comentários:

Rapha disse...

E um pouco de a-diplomacia pelo diretor e alguns atores-atrizes que proporam um pseudo anarquia teatral mas preferiram ou só conseguiram ser como os líderes que já estão por aí: quando o teu poder é um pouco questionado, mostra-se a face de querer mandar e chamar os outros de "imbecil" só por terem entrado na ordem desordenda da fala humana...Depois eu falo mais...Porque estive lá e gostei da festa...Beijo!

Mona Clara Mendes disse...

E aqui estou lendo todos os comentários, todas as críticas, e todos os elogios...
Más nada, NADA, se compara a emoção viva encenada,por tudo já estudado sobre Zé e sobre o Teatro e principalmente sobre o Uzyna Uzona (OFICINA). É preciso estar vivo, estar no terreiro eletrônico do Oficina, pra sentir e se deixar sentir, de tantas sensações.Não é apenas uma dramturgia ali encenada, é a dramturgia viva, ardorosa, que nos transporta para o massacre do nosso cotidiano.
O Oficina é meu objeto de estudo, é minha paixão é meu OURO, é meu ARDOR!!!
E aqui de Salvador, permaneço conectada, ligada á todos os movimentos do Oficina, e saudosa por tudo que já vivi com os OS SERTÕES em Salvador e Canudos.
Meu Ser-tão vivo é o Oficina!!!
Estou a contar os dias, quero ir logo pra Sampã...quero viver novamente.E sentir vários orgasmos junto com Os Bandidos!..
Pois meus olhos ja não cabem mais de tantas lágrimas, ao vê os vídeos pelo you tube e lê todos os pots do blogg.
AFAGOS EM TODOS!!!
AMOROUROARDOR!

MONA CLARA MENDES!

 
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